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Apagão de professores é o nome que se dá ao cenário em que uma rede de ensino não consegue repor os docentes que deixam a sala de aula. Não é só uma questão de quantidade total de profissionais formados: é a conta entre quem está saindo, por aposentadoria, e quem está entrando, vindo das licenciaturas, os cursos que formam professores. Quando essa conta desequilibra, o efeito aparece devagar e no lugar mais concreto possível: a escola que começa o ano sem professor de Física, a turma que passa meses com aulas vagas de Química, a disciplina coberta por alguém de outra área.
É esse desequilíbrio que dois levantamentos recentes mediram, por ângulos diferentes. A 2ª edição da pesquisa Apagão dos Professores, do Instituto Semesp, olhou para quem está dando aula hoje e descreveu um quadro envelhecendo. O Anuário da Educação Básica 2026, elaborado pelo Todos Pela Educação, Fundação Santillana e Editora Moderna, olhou para quem está entrando na universidade e mostrou que os estudantes de melhor desempenho no Enem estão escolhendo outra coisa.
Entre 2015 e 2023, o número total de docentes no ensino médio cresceu 6,6%. Visto assim, o dado tranquiliza. O problema aparece quando se separa por idade: na faixa de até 24 anos houve queda de 31,1%, de cerca de 17 mil para 12 mil professores. Já entre os de 60 anos ou mais, o número mais do que dobrou, alta de 104,5%, de 18 mil para 37 mil.
Hoje, na rede pública de educação básica, a média é de um professor jovem, com até 24 anos, para cada três profissionais com mais de 60 anos.
"Os dados mostram que o risco de apagão não depende mais apenas da quantidade de professores existentes hoje. O principal desafio está na capacidade de formar, atrair e incorporar novos profissionais em ritmo suficiente para substituir aqueles que deverão deixar a carreira nos próximos anos", afirma a presidente do Semesp, Lúcia Teixeira, segundo o relatório divulgado pela instituição.
Há um segundo fator, menos óbvio, apontado pelo levantamento: a expansão do ensino a distância. Houve alta de 158% nos cursos presenciais e a distância, mas a modalidade a distância atrai predominantemente profissionais mais velhos, que já trabalham. O resultado é que 7 em cada 10 formados têm mais de 30 anos. As faculdades continuam formando professores, só que eles chegam mais velhos à sala de aula e passam menos tempo lecionando até a aposentadoria.
A pesquisa do Semesp organiza a baixa atratividade em três frentes.
A primeira é a remuneração. Segundo dados da RAIS, a Relação Anual de Informações Sociais, em 2025 um professor do ensino médio ganhava cerca de R$ 6,5 mil por mês, 20% a menos que a renda média dos trabalhadores com ensino superior completo, de R$ 8,1 mil. Em algumas disciplinas o desnível é maior: professores de Sociologia do ensino médio têm média salarial de R$ 4.695.
A segunda são as condições de trabalho. O indicador de esforço docente, medido pelo Inep, mostra que em 2025 41,4% dos professores de ensino médio no Brasil tinham de 50 a 400 alunos, trabalhavam em dois turnos, em uma ou duas escolas e em duas etapas de ensino diferentes. Mais provas para corrigir, mais aulas para preparar, mais deslocamento.
A terceira é a perspectiva de longo prazo. O estudo compara com outros países: na Coreia do Sul, a remuneração anual de um professor sai de US$ 37,8 mil no início da carreira para US$ 65,8 mil após 15 anos, chegando a US$ 104,8 mil no auge. Na Austrália, vai de US$ 57,5 mil a US$ 81,8 mil, com teto de US$ 93 mil. No Brasil, o retorno ao longo da carreira não acompanha esse desenho.
Isso não significa que não haja quem fique. Felipe Ramos, de 24 anos, leciona educação física e a disciplina de esporte, música e arte em uma escola estadual de São Paulo, a mesma onde concluiu o ensino médio como aluno. Atua há três anos e planeja seguir na carreira. A coordenadora pedagógica Elaine Cristina Pocopetes Capello ressalta que o ambiente escolar mudou e que, se os professores não se sentirem acolhidos, tendem a abandonar a escola.
O Anuário da Educação Básica 2026 ataca o mesmo problema pela outra ponta: quem decide, aos 18 anos, o que vai cursar.
Apenas 14,7% dos ingressantes em licenciatura estavam entre os 20% de melhor desempenho no Enem de 2024. Os microdados foram extraídos da sala de segurança do Inep em março. O indicador vem caindo desde 2020, quando o percentual era de 22%.
A comparação com outros cursos dá a dimensão. Entre os ingressantes em Direito, 32,6% estavam nesse grupo de melhores notas. Em Medicina, 81,2%. O Anuário aponta ainda que, além da perda de prestígio da carreira docente, deficiências na formação inicial e desigualdades étnico-raciais e socioeconômicas reduzem a chance de conclusão do curso.
"Os dados apresentados no Anuário mostram que o Brasil ainda não conseguiu consolidar aquilo que caracteriza os melhores sistemas educacionais no mundo: políticas docentes capazes de atrair estudantes de alto desempenho para a carreira, oferecer uma formação inicial que prepare efetivamente para o exercício da docência e garantir remuneração e carreiras capazes de desenvolver, valorizar e reter bons professores ao longo do tempo", afirma Gabriel Corrêa, diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação.
O mesmo estudo registra avanços em outras frentes. Em 2025, 43,3% das crianças de até 3 anos estavam matriculadas em creches, 2,2 pontos percentuais acima de 2024, e o atendimento na pré-escola chegou a 96,1%, melhor nível da série histórica. As matrículas no ensino médio técnico mais que dobraram em dez anos, de 764 mil em 2015 para 1,58 milhão no ano passado.
Para medir a capacidade de reposição, o Instituto Semesp criou a Taxa de Renovação Docente, que relaciona o número de professores com até 24 anos ao de professores com 60 anos ou mais. Acima de 1, há mais jovens que idosos na disciplina. Quanto menor o número, maior o alerta.
As quedas mais acentuadas entre 2015 e 2023 aparecem em Química (de 1,77 para 0,42), Educação Física (1,59 para 0,40), Física (1,53 para 0,4) e Biologia (1,45 para 0,37). As menores taxas absolutas estão nas humanidades: Geografia, com 0,216, cerca de um professor jovem para cada cinco mais velhos, seguida de História (0,234), Língua Portuguesa (0,240), Sociologia (0,263), Filosofia (0,274) e Artes (0,278).
"Esse movimento demonstra que o problema da renovação não está concentrado exclusivamente nas áreas que atualmente possuem menor número de professores. Trata-se de um fenômeno mais amplo, associado ao envelhecimento do quadro e à dificuldade de entrada de novas gerações na carreira docente", diz o relatório.
A projeção do instituto indica que, em 2040, a taxa média pode cair para 0,17: um professor com até 24 anos para cada seis com 60 anos ou mais. Em números absolutos, cerca de 10,7 mil professores jovens diante de 61,9 mil docentes com 60 anos ou mais.
A primeira coisa a observar é se o assunto sai do relatório e vira pauta concreta. O Anuário foi apresentado como ferramenta para qualificar o debate público durante o período eleitoral e orientar formulações no sistema educacional. Vale acompanhar, nos próximos meses, se candidatos e governos apresentam propostas específicas sobre carreira docente: reajuste e estrutura de salário, incentivos para atrair estudantes às licenciaturas, mudanças no financiamento da educação básica ou do ensino superior. Promessa genérica de "valorizar o professor" não diz nada; mecanismo, valor e prazo dizem.
A segunda é usar as disciplinas como termômetro. Se a Taxa de Renovação Docente estiver certa sobre onde o problema é mais agudo, Geografia, História, Química e Física são os lugares onde a falta tende a aparecer primeiro. Isso é verificável na escola do seu filho ou da sua comunidade: quantas turmas começaram o ano sem professor titular em alguma dessas matérias, quantas aulas ficaram vagas, com que frequência um professor de outra área assumiu a disciplina. Esse dado local chega antes de qualquer estatística nacional.
A terceira é entender que o efeito é lento e cumulativo. Formar um professor leva anos, e o levantamento do Semesp mostra que quem se forma hoje chega mais velho e fica menos tempo em sala. Mesmo que uma política de atração fosse anunciada amanhã, a reposição não seria imediata. Nas escolas que você conhece, alguma disciplina já está sendo dada por quem não é formado nela?
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